segunda-feira, setembro 27, 2010
Perfeita Simetria.
Uma hora quer Argentina, outra hora São Bernardo do Campo, outra hora quero estar em lugar nenhum.
Esse meu desejo de comer o mundo todo numa pratada só, de ter tudo, de querer tudo e ao mesmo tempo nada querer, é tão efusivo que faz com que eu me deteste só de pensar.
No tempo em que nada nos dividia eu não pensava em padecer, eu não pensava em furar a bolha, eu só queria o beijo o cheiro o gosto o elo.
Mas agora não há mais tempo e eu dividi o indivisível e forcei-o a quebrar, rude, triste, sem chão de giz.
Engraçado que meus posts pós-arrependimento-das-merdas-insanas-que-fiz são sempre iguais, esse ciclo é sempre igual, o gosto que fica é sempre igual. Talvez a falsa repetição seja pra eu tirar algo da minha cabeça ou pra tentar ser algo que eu fui há muito tempo e simplesmente não sei mais ser.
Deve ser isso. Eu não sei mais ser. Pensei que sozinha eu fosse refletir mais, trabalhar mais. Mas é impossível tentar ser alguém que nunca fui, ainda mais sem a pessoa que era a melhor parte de mim.
Experiência é o nome que a gente costuma dar aos próprios fracassos, por puro eufemismo de admitir que se é um bosta.
'Ao tempo em que nada nos dividia, havia motivo pra tudo, tudo era motivo pra mais. Era perfeita simetria. Éramos duas metades iguais.'
quinta-feira, novembro 19, 2009
No seu coração o meu amor é maior.
Mas sei lá. Não é nada disso. Não é força cósmica nenhuma que nos atrai. Não é força do acaso nem ironia do destino. Poderia falar de Deus? Ah, deus também não é, nós duas não nos preocupamos nem com uma formiga, então seria blasfêmia dizer que recebemos uma certa ajuda divina.
Também não é karma, nem dharma, nem nada disso.
É só amor. Eu te amo porque te amo, sabe? Embora pior que todos esses citados, Rubem Alves uma vez contou que é como o ipê: floresce porque floresce.
E já passado mais de um ano, mesmo com as nossas brigas tolas, você é a primeira pessoa que eu penso quando acordo e a última antes de dormir.
Te amo, Aline.
Eles sabem porqu'eu amo seus lábios, lavam os meus e se calam num beijo.
sexta-feira, julho 03, 2009
MJ´s.
Enjoy:
Michael “Neverland” Jackson
Michael Jackson era negro e queria ser branco (com sua cota ancestral de dor negra)
O que o vitimizou – como um estigma
Michael Jackson era pobre e queria ser rico (de posses infantis e desejos transversais)
O que o desconfigurou como um estorvo
Michael Jackson era homem e queria ser mulher (de alguma maneira que pudesse)
O que o adulterou - Narciso cego, Édipo manco
Michael Jackson queria ser judeu (mas era um Peter-Pan enjaulado em cantagonias)
O que o marcou como ser na identificação de.
Michael Jackson como um não-Ser num não-lugar
Cantava dançava compunha dirigia criava voava
Um quase preto homem-menina com desvios íntimos
Com fox-trot nos pés e nos quadris portentosos
E uma alma sempre criança mal-amadurecida
Na ultrajada inocência para fins midiáticos e lucrativos
Fugiu-se na música – as ousadas canções
Tinha ritmo frenético – em viagens sonoras
Sobreviveu feito ermitão – urbano entre brinquedos
O pop do alto ao chão – paranóia na vida-livro
Muito além dos píncaros da glória efêmera...
Agora não tem cor – Não há cor na morte
Agora não tem posses – Nada levamos daqui
Agora não tem sexo – A terra há de comer
Agora não tem vitiligo: pergunte ao pó
Para ter sua tão sonhada Neverland
Assim na terra como no céu em purgações
Cortaria os próprios pulsos com música
Melodia, harmonia, ritmo em vício-clip
Sem saber que do outro lado da vida-hollywood-presley
Não há hormônios - nem cirurgias
Não há espelhos – nem camarins
Talvez nalgum lugar entre o céu e o inferno da terra-mãe
Ele encontre finalmente paz – mas uma paz não humana
E então não tenha mais vergonha da cor
Não tenha nunca mais vergonha do rosto
Não tenha vergonha da origem ou do sexo
Porque seu espírito atribulado finalmente se refrigerará
Em estúdios muito além de suas tantas realidades paralelas
E dentro da morte – muito além do som do silêncio –
Ele novamente ensaiará os primeiros passos de si mesmo
Como num “Thriller”.
Silas Correa Leite – Santa Itararé das Letras, São Paulo, Brasil
E-mail: poesilas@terra.com.br
Blogue premiado do uol: www.portas-lapsos.zip.net
Autor de “O Homem Que Virou Cerveja”,
Crônicas Hilárias de Um Poeta Boêmio,
Prêmio Valdeck Almeida de Jesus, Salvador, Bahia, 2009, Giz Editorial, no prelo